Última alteração: 2019-09-21
Resumo
Esse artigo pretende discutir a fronteira entre música e ruído que permeia a obra do compositor Livio Tragtenberg através da relação entre Filmefobia (2008), dirigido por Kiko Goifman e a performance O gabinete do Dr. Estranho (2011), de autoria do músico. A discussão leva em conta elementos em comum presentes nas obras como: O compositor de corpo presente, o diálogo com o gênero horror e também a utilização de música criada a partir de sons não-musicais. Também são considerados significativas diferenças, como o suporte midiático que cada uma se situa,e também as distintas maneiras de relação com o público que são propostas.
Em Filmefobia, filme que são vistos fóbicos reais e atores tendo suas fobias despertadas diante da câmera, a fronteira entre música e ruído está diretamente ligada o limiar entre ficção e documentário em que o filme se estrutura. O compositor aparece em cena gravando e processando sons em função das fobias, tanto para estimular a reação dos fóbicos, quanto para propor pontos de escuta ao espectador. Não se tem nem nenhum distinção entre atores e fóbicos. Os realizadores estão presentes no filme interpretando eles próprios. No Gabinete d o Dr. Estranho, instalação/performance em que Tragtenberg se desfia a criar música a partir qualquer som oferecido pelo público, a sonoridade ruidosa está diretamente relacionada ao limiar entre o fazer artístico e o cotidiano, esse cotidiano toma uma maior proporção quando a obra sai do galeria de arte e vai para ruas de cidades do interior paulista.
Após a contextualização do assunto, um pequeno panorama histórico é dado para que se tenha uma ideia de caráter mutável da relação música/ruído bem como são apontados alguns exemplos de sonoridades relacionadas a música de vanguarda, que ganharam lugar importante dentro do universo da música de cena. Também são discutidas questões conceituais, levando em conta os elementos que estruturam as obras, abordando o aspecto intermidiático e a relação com os elementos de gêneros presentes nos objetos de estudo (elementos de documentário e horror). Para o embasamento sobre música e som no cinema, é feito diálogo como importantes autores a como Michel Chion, Anahid Kassabian. Também são abordadas questões conceituais sobre a fronteira entre música e ruído através do diálogo com autores como Giuliano Obici e Murray Schafer, que investigam territórios sonoros e possíveis percepções do mundo através da escuta.