Última alteração: 2019-09-21
Resumo
A série The Handmaid’s Tale (Bruce Miller, 2017) narra as consequências de um golpe que cria um Estado fundamentado numa ideologia teocrática que justifica e sustenta uma profunda desigualdade de gênero que permite que o corpo da mulher seja um território sob o domínio dos homens. A voz off da protagonista Offred conduz a narrativa em primeira pessoa e evidencia as transformações que aconteceram em sua vida a partir da instauração deste Estado. Neste mundo distópico, marcado pelo silêncio das mulheres, a trilha musical é utilizada de três formas distintas na narrativa. As composições originais de Adam Taylor analisadas no presente trabalho são minimalistas, com melodias cíclicas, inaudíveis, correspondendo aos preceitos identificados por Claudia Gorbman. Elas são utilizadas nos momentos de tensão e violência no presente diegético da narrativa e também no passado, nas ocasiões em que a sombra do novo Estado totalitário se anuncia ainda no mundo anterior a Gilead. A trilha musical compilada e popular, composta por mais de vinte canções, por sua vez, se faz presente nas situações do passado diegético em que havia certa liberdade individual e quando há no presente alguma ação de desobediência transgressora ou algum acontecimento que aponta para a possibilidade da relativa liberdade existente no passado perfurar o presente totalitário. A música popular compilada é utilizada como mecanismo que verbaliza o que as personagens femininas, sem direito a voz no presente diegético, querem dizer. É ela a responsável por apresentar as facetas reprimidas das Aias e alguns fragmentos da mulher que existiu na protagonista Offred. Essas canções também operam promovendo a identificação do espectador, fazendo-o lembrar que, apesar da vida imposta por aquele estado teocrático se assemelhar a de séculos atrás, o mundo vivido pelas personagens é contemporâneo. O presente trabalho analisa o uso da canção Feeling Good interpretada por Nina Simone, tendo em vista não somente o contexto em que se dá o uso da mesma na narrativa, mas também a história prévia dessa canção e os significados a ela atribuídos que se fazem presentes no produto audiovisual na medida em que o espectador, também inserido na cultura que os construiu, identifica e reafirma tais significados, tendo como referência para tal os estudos de Anahid Kassabian e de Jeff Smith. No momento em que a personagem protagonista identifica definitivamente que o Estado totalitário está de fato instaurado, há uma utilização híbrida da música popular compilada juntamente com uma música que tem as mesmas características da trilha original: um mashup dos vocais da popular Heart of Glass de Blondie sobrepostos a Violin Concerto Nº 2 de Philip Glass que marca a fronteira determinante entre o mundo anterior de relativa liberdade individual e o Estado teocrático de Gilead. O objeto de pesquisa do presente trabalho, portanto, é analisar estes três usos distintos da trilha musical a partir das composições originais de Adam Taylor, da canção compilada Feeling Good e do mashup de Blondie e Philip Glass, considerando suas características, o histórico prévio das compiladas e o contexto de inserção das mesmas na narrativa.
Referências bibliográficas, fílmicas e musicais:
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GORBMAN, Claudia. Unheard melodies - Narrative film music. Bloomington: Indiana
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KASSABIAN, Anahid. Hearing film: tracking identifications in contemporary
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KASSABIAN, Anahid. “The sound of a new film form”. In: INGLIS, Ian (ed.). Popular
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SMITH, Jeff. The sounds of commerce: marketing popular film music. New York:
Columbia University Press, 1998.
The Handmaid’s Tale (The Handmaid’s Tale, Primeira Temporada. 2017). Direção: Bruce Miller. Estados Unidos: Hulu, 2017, 10 episódios de 60 min., som, cor.
Anthony Newley e Leslie Bricusse. “Feeling Good”. Intérprete: Nina Simone. Álbum: I Put a Smell on You. Estados Unidos: Philips Records, 1965, 1 CD.
Chris Stein e Deborah Harry. “Heart of Glass”. Intérprete: Blondie. Álbum: Parallel Lines. Estados Unidos: Chrysalis Records, 1973, 1 CD.
Philip Glass. “Violin Concerto nº 2 (The American Four Seasons)”. Álbum: Violin Concerto Nº2 (The American Four Seasons). Estados Unidos: Orange Mountain Music, 2010, 1 CD.