Portal de Conferências da UFRJ, IV Jornada Interdisciplinar de Som e Música no Audiovisual 2019

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Som no cinema, som no vídeo
Alexandre Brasil de Matos Guedes

Última alteração: 2019-04-12

Resumo


Gostaria de tentar tipificar um pouco mais claramente as formas de uso da banda sonora nestas duas formas audiovisuais, o cinema e o vídeo. Em primeiro lugar, é preciso notar a diversidade subjacente ao que o uso corrente costuma tratar de forma um tanto uniformizada. O cinema é um campo de práticas muito diversas, tanto do ponto de vista de sua história quanto numa perspectiva mais diacrônica. O caso do vídeo é ainda mais complexo, pois essa designação foi usada principalmente para caracterizar práticas surgidas com o surgimento das tecnologias de videoteipe, nos anos 50, e que se difundiram largamente a partir de fins da década de 70. Por vídeo, é possível abarcar práticas que vão desde a televisão corporativa, as câmeras pessoais amadoras e aos usos por artistas, notadamente no campo da videoarte.

Apesar dessa complexidade, creio ser possível apontar algumas diferenças e semelhanças consistentes na forma como a banda sonora destas práticas audiovisuais tem sido utilizada. Para tanto, procurarei apresentar algumas características distintas destas duas formas, tomando-as em uma perspectiva ampla de seus usos na cultura ocidental. Na impossibilidade de abranger o maior número possível destas práticas, pretendo me ater sobretudo ao que se costuma chamar de cinema de autor, por um lado, e aos trabalhos ligados as práticas de videoarte, por outro. Creio que seja possível tirar daí algumas constatações interessantes, sobretudo num momento como o atual, em que tais práticas parecem convergir ou, pelo menos, dialogar.

Dentre os aspectos que abordarei, destaco as formas de tratamento do material sonoro em geral, onde, nas práticas de vídeo, pode-se perceber uma maior incidência do som captado em conjunto com a imagem visual, enquanto no cinema as formas de captação tendem a ser feitas distintamente, num processo bastante complicado de registro, tratamento e posterior junção; O papel que cabe a elementos centrais em ambas as formas, como a voz e a música, que assume características e funções distintas, as vezes de forma sutil, as vezes de forma muito específica; As formas de articulação entre o visível e o audível, com características disjuntivas e conjuntivas que tendem a revelar todo um arcabouço conceitual e prático diferente entre os usos do cinema de autor e da videoarte, muito embora essas duas formas pareçam ter objetivos em comum; a atual reconfiguração dos meios de exibição, que parece estar aproximando estas práticas, tanto do ponto de vista de seus meios de produção, quanto de suas formas de circulação.

 

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