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O valor da interconsulta como dispositivo clínico
Última alteração: 2017-08-18
Resumo
A partir das práticas implementadas no Programa de atenção à saúde mental do estudante em curso no IPUB, apresentamos algumas reflexões sobre o redimensionamento da abordagem ao sofrimento psíquico, levando em consideração dois aspectos fundamentais. Por um lado, estruturalmente, uma demanda não deve encontrar uma resposta protocolar e, por outro, o saber que se elabora no encontro da demanda com uma possível resposta terapêutica só tem valor clínico ao incluir o sujeito que sofre.Neste contexto, estamos às voltas com o que Freud e Lacan desenvolveram em torno da posição do médico, da função e dos limites da clínica e do lugar da prática psicanalítica em relação ao saber médico. Um médico, segundo Freud, tal como nós o lemos com Lacan, é alguém que precisa enfrentar a “demanda que parte de um doente”, e que não encontra resposta na medicina, a partir do momento em que a função do médico se esmaece, reduzindo-o a um aplicador de protocolos, inclusive terapêuticos.Levando em consideração os crescentes impasses colocados pelas demandas por atendimentos de urgência cada vez mais frequentes em nossa prática, nos interrogamos acerca dos limites da clínica e de nossas intervenções diante do mutismo de passagens ao ato suicidas e de demandas, cada vez mais frequntes, por soluções mágicas concentradas em pílulas, sem que o sujeito tenha que se incluir nesse trabalho. Por meio de práticas interdisciplinares, elegemos a interconsulta como método. Seguimos colocando em prática modos de intervenção que, ao exigirem uma posição colaborativa entre os profissionais envolvidos na condução dos atendimentos, permite uma abertura à surpresa do lado de quem cuida e de que quem está sob cuidado. Nossa experiência vem nos oferecendo efeitos em termos de redimensionamento do manejo das situações de urgência, com ganhos de saber e de resposta ao convite à fala, ao trabalho na direção do tratamento.A realidade que podemos observar em todos os sistemas de saúde dos países ditos desenvolvidos nos dá mostras de que o limite do cuidado é econômico, político, social, e que cada vez mais afasta-se do médico o dizer sobre o que concerne o seu saber e o que está fora de seu campo. Consideramos, portanto, que a questão deve ser situada sobre a demanda, sobre uma demanda exacerbada pela própria oferta infinita de terapêuticas e medicamentos. E diante disso vimos na condução compartilhada uma via renovada de retificação da posição clínica que, para o médico, permite reinstalá-lo num aquém da resposta às demandas e ao psicanalista, reinventar seu lugar na prática clínica institucional, indo muito além de um modelo standard de atendimento apenas para aqueles que, de antemão, querem falar.
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