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SAÚDE MENTAL DOS ESTUDANTES DO CURSO DE MEDICINA – UM DESAFIO IMEDIATO PARA A EDUCAÇÃO MÉDICA
Última alteração: 2017-08-18
Resumo
Introdução: A realização de um curso superior costuma ser marcada por processos conflituosos, onde o estudante é constantemente colocado à prova diante de situações que exigem habilidades técnicas, humanas e relacionais. Este período pode ser experimentado a partir de vivências dolorosas, influenciadas por inúmeros fatores individuais, mas, sobretudo, que dizem respeito aos modos de sociabilidade no ambiente universitário e ao método educacional. Nas escolas médicas, ocorre potencialização destes processos, devido a características específicas do curso médico. Este trabalho procura refletir sobre a carga de sofrimento dos estudantes de medicina e identificar os pontos de origem, a fim de lança-los como desafios para a comunidade acadêmica. Metodologia: Estudo descritivo, teórico-reflexivo, baseado em revisão de literatura e nas impressões dos autores a partir da experiência dialógica com estudantes do curso de medicina da UFRJ. Resultados: Estudos apontam que em torno de 30% dos estudantes de medicina apresentam sintomas de depressão. As taxas de suicídio entre essa população têm aumentado consideravelmente, assumindo caráter epidêmico. No curso de medicina da UFRJ, muitos são os estudantes que buscam auxílio médico-psiquiátrico ao longo da graduação, afetados por sintomas depressivos, os quais influenciam sua vida diária, seu desempenho acadêmico e comprometem até mesmo sua permanência na universidade. Estas condições podem ser analisadas a partir de um espectro de causas, que iniciam pelo perfil do alunado, modificado a partir da reorganização do acesso fundamentada nas políticas de ações afirmativas. O curso de medicina da UFRJ passa a abrigar estudantes vindos de diversas regiões do país, pertencentes a classes sociais distintas e com bagagem cultural heterogênea. Os desafios financeiros pesam sobre muitos estudantes, somados à dificuldade de trabalhar durante o curso e às ainda carentes políticas de assistência e permanência estudantil. Outro grupo de fatores diz respeito a características próprias do curso médico: o encontro precoce com a morte, através das aulas ministradas com cadáveres no primeiro período; o encontro com o “morrer”: a impotência diante do sofrimento dos pacientes; os sentimentos múltiplos provocados no encontro com “o outro”; e, sobretudo, a falta de espaços onde estes sentimentos possam ser elaborados. Além disso, outro grupo de fatores se relaciona com o modelo educacional vivido pelos estudantes: extensa carga horária, com poucas áreas verdes; dificuldade no manejo das faltas, levando a reprovação de muitos estudantes; excesso de avaliações, muitas vezes punitivas; competição em detrimento da cooperação entre os estudantes, com ênfase no rankeamento por notas e na meritocracia; e o próprio modelo de educação bancária, em que o aluno funciona como sujeito passivo e não é estimulado a pensar criticamente sofre seu papel no mundo. Por fim, os modos de sociabilidade também contribuem para o sofrimento destes estudantes: o trote violento; a discriminação sofrida por muitos alunos, incluindo racismo, homofobia e psicofobia etc. Conclusão: O estado da saúde mental dos estudantes de medicina em nossa universidade se mostra dramático, e exige políticas eficazes no enfrentamento deste problema, de base multifatorial. A comunidade universitária precisa estar envolvida e encontrar estratégias de controle e prevenção destes quadros de sofrimento.
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